Conheça o nobre Capim Dourado

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    Uma viagem ao Jalapão para conhecer o nobre capim dourado !!!

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    ara ir de São Paulo à Mumbuca, no Jalapão, tive que sair de Florença. Pronto. Lá vem mais uma daquelas histórias fantásticas do tipo Barão Munchausen, ou do Dr. Faustroll, aquele que foi de Paris a Paris por mar? Mas não, foi assim mesmo. Tudo começou no Mercado da Palha em Florença, onde estão expostos artigos confeccionados com fibras naturais do mundo inteiro, e que fazem moda. Sob suas arcadas uma pequena bolsa se destacava. Seu tom ensolarado reverberava luz nas outras, e isso me chamou a atenção.

    “Ela é pequena, mas muito cara, disse uma vendedora baixinha e peituda. Nenhuma se compara em originalidade de material a esta bolsa. É o único exemplar, vendemos todas”, e sem que eu perguntasse, avisou: “custa 200 euros, pois é feita de um vegetal raro lá do Brasil”. Ela não sabia, mas identifiquei de imediato o capim dourado.

    Florença é famosa por proporcionar surtos de beleza, mas confesso que no restante de minha visita a esta cidade, sempre estive com o pensamento naquela bolsa. Quem faz? Em que lugar ela é confeccionada?
    E, não deu outra. No meu retorno ao Brasil, Silvia e eu nos organizamos para chegar em um dos poucos povoados cujas mulheres trabalham com o capim dourado – Mumbuca – no coração do maior deserto brasileiro.
    Difícil imaginar no Brasil um lugar tão inóspito quanto o Jalapão, no centro-leste do Tocantins. Mais difícil é acreditar que naquelas bandas se produz um dos mais belos artesanatos do país – o do capim dourado.

    Dunas do Jalapão

    São quase seis horas da manhã, e já estamos entrando no território do Jalapão pela cidade de Novo Acordo. Distante 110 km de Palmas, é a fronteira traçada entre as terras verdes e as áridas. Sob a forte luminosidade tropical vamos avançando pedra por pedra, comendo poeira, literalmente, e deixando para trás paisagens surrealistas, com dunas do tamanho de montanhas, sem exagero, e por conjuntos de rochedos que lembram cidades petrificadas.
    A pergunta em certos momento é inevitável: “o que eu estou fazendo aqui?”.

    Mas, são as escolhas do coração. Vim para conhecer as artesãs do capim dourado em Mumbuca, um povoado rural a 230 km de Novo Acordo, quase limite com a Bahia. É lá que se refugiam as mãos mágicas de mais de duas dezenas de tecedoras do capim dourado. A estrada, embora de terra, não é ruim, mas não tem sinalização nenhuma. Quem errar o caminho … já era. Por isso uma viagem por essa região requer o acompanhamento de um bom guia.

    Nos solos úmidos das veredas nascem o capim dourado crédito das fotos: Viramundo e Mundovirado

    Sempre sob um sol escaldante, mas com um pot-pourri de fragrâncias trazidas por ventos imprevisíveis – e abençoados, também topamos com verdadeiros oásis: as veredas, um ecossistema que aglomera palmeirais de buritis. Estes, são sempre regados por filetes de água que acabam por formar um lago no qual boiada e vaqueiros matam a sede. Pois, exatamente nos solos úmidos das veredas nasce o ‘capim dourado’, uma espécie de sempre-viva (Syngonanthus nitens). Vegetação delicada, com hora certa para se colher.


    Agora estou onde queria chegar, Mumbuca, um recanto sem atrativo turístico nem infraestrutura e com apenas 50 famílias. Lugarejo que tinha tudo para ficar esquecido no sertão de Tocantins. Nada há ali que seja preciso defender da passagem do tempo. Só que as mulheres desse lugar remoto sabem costurar com o capim dourado. Fazem mandalas, jarros, potes, cestas, pratos, sousplats, fruteiras, chapéus, caixas, brincos, pulseiras e colares. Todas aprenderam com dona Miúda (já falecida); transformaram esse artesanato em patrimônio cultural e estão ajudando a inserir Mumbuca no mapa.
    Ali, o olhar curioso de quem passa pode flagrar pelas janelas das casas de adobe um ambiente desprovido de quase tudo. Por vezes, não há nada além de uma rede.


    A beleza de um lugar não se limita às suas paisagens; envolve também a natureza dos seus habitantes. Basta olhar para as tecedoras do capim dourado para se encantar com Mumbuca. Não há desânimo, e muito menos lamentação; a autoestima é elevada, e o orgulho pelo trabalho desenvolvido está presente o tempo todo. Elas transmitem alegria. São expansivas, marotas… espertas. Cada figurinha! Sem conhecer esse povoado e seus habitantes é impossível ter acesso à beleza do Jalapão e de seus caminhos invisíveis.

    Tudo começou com Dna. Miuda foto: Viramundo e Mundovirado

    É rara a oportunidades de contato com esta verdadeira arte produzida em um dos rincões mais perdidos de nosso país. Ali, a tradição comanda: “Quando chuvisca na vereda, pode ir no dia seguinte que o capim brotou”, ensina Martina, que usa um pano vermelho enrolado na cabeça. Ela, Ana Claudia, Taine, Ilana, Marijane, Jivoene, Evaniu e Elizabete vão me ensinando os rituais da colheita. Dentre eles, usar um pano na cabeça, vestir saia, colher em grupo para afastar a sucuri e, sobretudo, bater o capim para espalhar as sementes maduras – o que faz dessas mulheres também guardiãs da natureza. Ahh, e não esquecer de secar o capim por 30 dias, senão ele escurece.


    Para completar tamanho encantamento, elas cantam sempre. Suas melodias ecoam e se misturam aos gritos das araras na imensidão do cerrado. Para mim foi como ouvir um mantra: “nosso Jalapão tem algo que eu não posso deixar de falar/ É do lindo capim dourado que devemos preservar/ Colhendo na época certa e deixando a semente no seu lugar/ Para que o lindo capim dourado continue a brilhar”.
    A colheita termina, vamos embora, mas o encanto não. De imediato o pensamento retornou para Florença, cidade que cultua a arte. Não é por acaso que o nobre artesanato de capim dourado lá está presente.


    Considere quando ir:
    A melhor maneira para conhecer todos os atrativos do Jalapão, 300km de Palmas, muitos deles quase escondidos e com pouca ou nenhuma placa de sinalização, é optar por um veículo 4×4, adequado para as estradas de terra, sempre na companhia de um guia que domine o itinerário, as distâncias certas, conheça as pousadas, rústicas e simples, e os locais quase secretos onde comer um peixe fresquinho.
    As estradas de terra e solo arenoso podem ter atoleiros na época das chuvas de outubro a abril. Nessa época apesar dos aguaceiros, as temperaturas são mais amenas que os normais 30º mínimos, mas, o ar ganha aromas novos. Leve chapéu, protetor solar, roupa leve e botas confortáveis.

    Mais informações: Associação Capim Dourado, Povoado de Mumbuca, Mateiros, tel (63) 99975-1746

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    fonte: http://viramundoemundovirado.com.br